domingo, 19 de dezembro de 2010

Eu tentei adiar essas palavras e evitar que esses sentimentos fossem colocados dentro delas, entretanto o meu empenho perdeu-se poucos segundos. A minha verdade é tão genuína que antes de pronunciá-la, ela antecipa-se, ganhando espaço maior no texto e desorganizando os períodos seguintes. Ela expande-se tanto que fica difícil codificá-la, colocá-la em um cofre com um segredo tão precioso quanto tua própria existência. Mas eu, já acostumada com esses termos, deixo que ela fale por si - é a única maneira de subordiná-la - e a acompanho com as minhas mãos já freneticamente trêmulas.
Ele está em tudo: nos meus dedos que digitam, nos meus olhos que acompanham, no meu corpo inteiro que sente e na voz que grita dentro de mim. Contudo, presado leitor, nós - a verdade, eu, e ele - estamos no mesmo barco, um barquinho de papel que passa as noites vendo o namoro entre o céu e o mar. Somos interligados,  e isso não se dá por conta dos seus belos dentes e todo o resto que parece ter sido meticulosamente esculpido. Eu confesso que tens, um visual deslumbrante, mas o que realmente me fascina é o seu modo de sorrir, porque você sabe sorrir, um prodígio teu, e isso são poucos os que conseguem. Você sabe sorrir,meu bem, e isso explica todo o resto.
Essa verdade, no entanto,  não limita-se aos seus talentos, como já havia dito, ela se espalha pelos seus olhares e a sua voz que, dentro de mim, transforma-se em fogos de artifício com brandura excepcional.
E antes de transcrever diretamente o que acontece no interior desse universo multicelular, é preciso esclarecer que não há nada ilícito aqui: é tudo magicamente puro e livre de qualquer pretensão alucinógena causada pela febre  dos sentimentos efêmeros. Portanto, já que as entrelinhas têm total liberdade de expressão sem nenhuma intervenção de minha parte e a minha sinestesia calejada se dispôs a esclarecer parcialmente o que cá se encontra, eu deixo claro, com os meus medos e reminiscências mordazes agarradas ao peito, eu ainda repito sem que as palavras esgotem-se facilmente : tudo isso porque eu gosto de você.

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