Você me achava engraçada. E isso era a coisa mais doce que alguém poderia sentir por mim. Você tava sempre rindo do que eu fazia, mesmo que isso muitas vezes me deixasse sem graça. Você me permitia ser eu mesma. E você gostava de mim mesmo eu sendo assim. Você me achava inteligente. Eu sempre quis que achassem isso de mim. Quando eu via as garotas mais bonitas e não tinha como competir com elas, eu decidi que tinha que ser interessante. Eu sempre tava desesperada atrás de assunto, atrás de saber tudo sobre tudo só pra ter algo pra distrair as pessoas.Você me achava bonita. Eu sempre fiz de tudo pra me esconder, pra ser invisível, e você sempre me via. Eu achava que o mundo não podia me ver como eu sou. Quando eu olhava no espelho, eu só via um coração fragmentado e um rosto desfigurado. Eu era uma obra-de-arte inacabada e por isso eu sempre me cobria. Você me achava meiga. Dá pra acreditar? Eu, que sempre quis ser a forte, a durona e a insensível, não passava de uma garotinha meiga e cor-de-rosa. Você sempre soube me fazer chorar de alegria. Ninguém mais sabe fazer isso.Você me achava forte. Mas eu nem era tanto assim. Eu sempre vesti minha armadura na frente de estranhos. Eu usava uma máscara que me impedisse de ver meu rosto desfigurado. Nem você chegou a me conhecer de verdade. Você me achava diferente. Isso era o máximo. Depois de tanto odiar essas garotas produzidas em série, eu poderia dizer que não era como elas e ainda ter uma testemunha. Quando eu, aos 15 anos, não me encaixava em lugar nenhum, inventei que era “diferente”. Ouvi umas cinco ou seis bandas estranhas, li uns livros cult, aprendi coisas sobre o mundo e não quis saber de salto alto e maquiagem. Você me achar diferente foi o reconhecimento de todo esse trabalho.E por incrível que pareça, você me achava única e mesmo assim preferiu outra garota. Mas eu entendo você. Se perdê-la, vai ter uma dúzia igual a ela em qualquer esquina.Deve ser mesmo difícil me perder.
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