domingo, 19 de dezembro de 2010

- Frio não é?
- Pois é, senta aqui.
[Silêncio]
- Por que não consegue dormir Pri.. ?
- Não! Não fala meu nome! Essa noite teremos apenas apelidos.
- Tudo bem então, te chamarei de outono, sei lá, foi a primeira coisa que me veio na cabeça.
- Então te chamarei de inverno, não é tão original?
- Tão clichê.
- Tão brega.
E os dois riem.
[Silêncio]
- Sabe, eu tenho medo.
- Medo?
- É, você não sente medo às vezes?
- Claro que sinto, todos os dias, principalmente quando estou com.. ah deixa pra lá.
- Comigo? Era isso que você ia dizer?
- ... com frio! Mas com você também.
- Eu também.
- Com frio ou comigo?
- Os dois.
[Silêncio]
- Então, por que não consegue dormir?
- Não sei, fiquei pensando em algumas coisas.
- Que tipo de coisas?
- Não sei, coisas que me deixam maluco só de pensar, mas não tenho certeza de nenhuma dessas coisas que penso e que talvez, só talvez eu já sinta.
- Eu já sinto, e disso tenho certeza.
- Sente?
- Sim.
- O que?
- Ah você sabe, essas coisas que se sente o tempo todo, quer dizer, não o tempo todo desse jeito, às vezes tudo fica meio vazio, mas nesse momento eu sinto.
- Sente que gosta?
- Não sei.
- Você acabou de dizer que tinha certeza.
- Mas gostar a gente nunca tem certeza. Gostar é tão abstrato.
- Você tá me deixando confuso.
- Mais?
- É, mais. E esse medo, digo, frio, você tem sentido?
- Toda hora.
[Silêncio]
- Quer que eu vá buscar mais uma coberta?
- Não! Fica aqui.
[Silêncio]
- Será que é normal sentir esse tipo de coisa?
- Deve ser.
- Deve ser?
- É.
- Você já sentiu?
- Desse jeito assim, não.
- Eu também.
- Você também o que?
- Nunca me senti assim.
 [Silêncio]
- O que será que acontece?
- Quando?
- Quando a gente descobre que é mesmo amor.
- Deve dar frio...
- … e medo.
[Silêncio]
- Não queria morrer sem ao menos tocar alguém de verdade, sem fazer alguém sentir essa minha entrega, sem que alguém bebesse meus sonhos, sei lá, parece bobeira falando assim.
- Você não vai morrer tão cedo, fica tranquilo.
- Quem me garante?
- Eu te garanto, e eu sou o outono.
[Silêncio]
- Você geralmente não dorme ou é só quando eu venho dormir aqui?
- É geralmente quando chove.
- Tá chovendo?
- É então que eu penso mais.
- Eu penso em você quando chove.
- Só quando chove?
- Não.
[Silêncio]
- Se tiver chovendo amanhã a gente não vai poder jogar futebol.
- Nem andar por aí.
- Podemos assistir um filme.
[Silêncio]
- E se a gente perguntar pra alguém?
- Sobre o filme?
- Não, sobre o amor.
- Ninguém ia saber responder.
- Será?
- Não do jeito que a gente quer ouvir.
[Silêncio]
- Eu quero.
- Eu também.
[Silêncio]
- Tem um cigarro?
- A gente não fuma.
- Não?
[Silêncio]
- Essa coisa de inverno, de outono, por que disso?
- Não sei, não queria ter razão hoje.
- Acha que não existe razão nessas coisas de estações do ano?
- Bom, no nosso caso, os dois são frios, não são?
- E o frio não tem alguma razão?
- Pra existir.
- Pra existir?
- Amor, pra existir amor, precisa de frio.
- Sempre achei que fosse de calor.
- Também.
[Silêncio]
- Então um de nós não deveria ser o verão?
- Não necessariamente.
- Por que?
- Gosto do que não faz sentido.
- É, e eu gosto de coisas iguais.
- Então gostamos os dois da mesma coisa.
[Silêncio]
- O que falta então?
- Pra que?
- Pra conseguirmos dormir.
- Pra você eu não sei, pra mim falta parar de chover.
- Não está mais chovendo.
- Mas já vai começar de novo.
- E como você sabe?
- Eu sou o inverno.
[Silêncio]
- E se o inverno aprendesse com o outono a dormir mesmo quando chove?
- Então ele seria o verão.
- E eu seria a primavera.
- E continuaríamos iguais.
- E continuaríamos iguaisl.
[Silêncio]
- Me deu calor.
- Estranha essa mudança ?
- Tenho medo.
- Se não há frio, não há porque ter medo.
- Não é mais isso que me deixa com medo.
- O que é?
- Você.
- E o amor?
- E não é a mesma coisa?
[Silêncio]
- Vem comigo?
- Pra onde?
- Qualquer lugar onde faça frio e calor.
- Meu coração é assim.
- Assim como?
- Capaz das duas coisas.
- Todo o mundo é assim.
- Então vem comigo.
- Vou.
- E o medo?
- Passou.
- Por que?
- Porque agora é real, tenho certeza.
- O que te fez perceber?
- Não sei, toda essa história de estações do ano, de chuvas, de medos.
- Fez algum sentido?
- Não.
- Então?
- Bem por isso. Não preciso de razão pra estar com você.
[Silêncio]
- Me abraça?
- Te abraço. Te falei que você não ia morrer antes de tocar alguém.
- Não vale. Vamos dormir?
- Vai indo, vou tentar arrumar tudo isso.
- O que? Nem fizemos bagunça.
- Você que pensa.
A confusão logo some pra dar espaço pra outros tipo de perguntas. É besteira achar que os questionamentos humanos tem alguma diferença. É tão puro e ingênuo que assusta quem não sabe perceber no ar o que já existia a muito tempo dentro do coração.

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